Carta Pastoral ao 64º. Concílio Diocesano
Caros Delegados Clericais e Leigos, irmãos e irmãs, em primeiro lugar é-nos imperioso rendermos graças a Deus por ter-nos conduzido em segurança durante nossa viagem até esta cidade de Belo Horizonte, e confiamos ao Seu cuidado todo o nosso deslocamento que aqui se fizer necessário até nosso regresso aos nossos lares.
Pelo que me recordo, esta é a segunda vez que o Concílio da DARJ se instala nesta terra das Minas Gerais, terra conhecida por um povo que trabalha em silêncio, dos regionalismos tão melodiosos do tipo “uai sô”, “O trem bão” do carinhoso “ocê” em lugar de você. Terra famosa pela sua culinária, dos deliciosos pães de queijo, pães de batata, do torresmo, do “tutu” de feijão à mineira, mas este povo mineiro com seu jeito provinciano, é conhecido mesmo por sua hospitalidade. E é neste clima de amizade e aconchego mineiro que vai se fecundando e se desenvolvendo de forma visível a Igreja Anglicana em Belo Horizonte pastoreada por dois clérigos, Reverendo Abel e o Reverendo Haroldo, coadjuvados pelo Pe. Darcimar e ainda pelo espirante ao Ministério Sagrado, Sr. Julio Ambrósio, essa alma franciscana cheia de misericórdia e de indignação, sem deixar de mencionar a considerável participação leiga que de forma tão generosa tem contribuído para o desenvolvimento da IEAB nesta cidade.
Rogamos a Deus que esse espírito de coleguismo e cumplicidade sem qualquer ranço de competição ou onipotência de uns sobre os outros, se mantenha com um fio condutor inquebrantável na construção uma igreja mineira que reflita seu próprio jeito de ser.
Talvez seja oportuno aqui, pontuar algumas pistas oferecidas pela própria natureza cultural, deste povo que nos hospeda. Quero ressaltar então, o dom da hospitalidade, anteriormente citada como uma das marcas positivas deste povo das alterosas. Insto a essa igreja alegre, contagiosa e esperançosa, que jamais perca o dom da hospitalidade. Refiro-me não somente a hospitalidade no seu sentido concreto de hospedaria, que não pode faltar, mas aquele que nos permite constantemente o alargamento da nossa hospitalidade interior, pois cremos, é por ela que podemos sufocar toda forma de mesquinhez mental e de exclusão que tanto empobrece nossas comunidades.
O presente século, visivelmente pluralista, deverá ser o século, da convivialidade, do intercâmbio e da comunhão entre os diversos, é entre eles e com eles que podemos alcançar riqueza interior libertando-nos das nossas próprias repetições. Toda vez que hospedamos o outro, hospedamos também sua diferença irredutível e singular. Entretanto, é necessário dizer que o “outro”, aqui referido, não diz respeito apenas ao que comigo comunga dominicalmente na igreja, não significa, outrossim, uma extensão minha, ou ainda ver no outro um duplo de mim mesmo. O “outro” que queremos significar há de aparecer a mim não como fruto de minha iniciativa, ou reflexo de minha própria imagem nele, ou ainda da minha catequese, mas pelo simples fato de que quando estamos diante desse “outro” estamos diante do sagrado. Infelizmente a nossa espiritualidade ocidental não alcança essa dimensão, construída que está sob o fulcro do possessivo, do pensamento único, da minha verdade, da minha religião, do meu saber, tantas vezes fruto de um pensamento lógico, aprendido, repassado, cognitivo, sem a capacidade afetiva de filtragem para atender as demandas culturais e aos novos e imprevisíveis anelos da alma humana. Sofremos por vezes da síndrome de Procusto, que segundo a lenda grega, era um famoso indivíduo que oferecia sua hospitalidade aos viajantes perdidos. Aos seus hóspedes oferecia-lhes uma cama de ferro e se os pés do hospede fossem mais longos do que a cama, ele cortava o que sobrava. Se fossem mais curtos, esticava-os a força.
O Bispo Emérito Desmond Tutu, presente à nona Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em POA, surpreendeu a muitos quando declarou que Deus não tem inimigos. No abraço de Deus, diz o Bispo, cabem brancos e negros, bonitos e feios, incluindo Bush, Sadan Hussein e Bin Laden. E eu ousaria acrescentar às declarações do ilustre colega de que Deus não pode ser justo, porque um justo não perdoa. Ele é como uma mãe que ama seu filho incondicionalmente e se ama incondicionalmente, não pode ser justo. Não estamos defendendo uma leniência irresponsável, do vale tudo, ou indiferente como se possa pensar, mas a ampliação dos nossos espaços interiores para que caibam dentro de nós o outro não como simétrico, mas assimétrico, antagônico e divergente, para que assim tenhamos a oportunidade de nos redescobrirmos mais ricos, construindo ao nosso redor horizontes mais amplos e significativos. E quando isso se configura pelo constante processo de nossa auto-superação, aquelas certezas sobre as quais investimos com todo o apego, hão de nos oferecer novas formas de linguagem para que melhor possamos pronunciar o mundo.
A hora de desconfiarmos de nossas verdades bate a nossa porta a todo momento. A verdade que desconfiamos é aquela entendida como adequação de conceitos ou coerência de dados. A verdade que anelamos, vai ser aquela capaz de promover nosso crescimento enquanto humano, que ocupa o espaço da subjetividade, é aquela que nunca se encontra, nunca se vê, temos que sentir o seu cheiro, sua fragrância, temos que andar no seu rastro, temos que andar em seu encalço, persegui-la, sem a presunção de aprisioná-la como um artefato racional e permanente. Como bem disse um certo teólogo, “a desconfiança será a ferramenta vigilante para nunca deixarmos a confiança tornar-se verdade”. E acrescento o que disse Sidarta Ribeiro, neurobiologista “O valor das coisas não é fixo, mas um constructo que se altera conforme a experiência, permitindo apreciar o que antes causava repulsa”.
A igreja deste início de milênio há de ser a mestra da hospitalidade dos contrários. Uma Igreja menos possuída de si mesma, convicta de que o tempo chegou exigindo dela uma maior flexibilização de suas estruturas para permitir um maior fluxo na participação laica em seu ministério.
Pensemos na dificuldade que temos quando se discute o espaço dos leigos, homens e mulheres, adolescentes, jovens e adultos, no ministério da igreja onde a grande maioria continua domingo após domingo sentada nos bancos como espectadora ainda que portadora de ricas possibilidades e dons a serem dinamizados. E mesmo assim os despedimos no final do culto com as palavras “Sede corajosos e fortes no testemunho do Evangelho entre os homens, servi ao Senhor com alegria”.
O Pe. José Marcos Bach, escreveu um pequeno livro lançado pela Ed. Paulus, onde ele afirma:
“É o povo que vai se encarregar de varrer para longe da sua igreja o culto idolátrico do poder eclesiástico. A renovação da vida cristã será obra de homens e mulheres que renunciaram a toda e qualquer forma de poder e resolveram apostar todas as suas fichas na caridade e no serviço.”
Pensemos na mulher, ainda sob os olhares de suspeição e entendida como um ser de suposta fraqueza física e mental, antiga herança de esquemas culturais opressores e que ainda permanecem instalados em nossas igrejas. Embora reconheçamos os grandes avanços já conquistados, pesa ainda sobre a Igreja uma dívida enorme em relação à mulher quanto ao espaço que ela deve ocupar no ministério. Talvez isso se deva à carga pejorativa que a igreja lhe impôs quando na Idade Média a considerava como uma réplica de Eva, identificada como a portadora do pecado. Tal estigma deveria ser motivo para levar a Igreja a lhe pedir perdão. Mas graças às compreensões teológicas mais recentes, em especial a teologia do feminino, vamos ganhando maior compreensão. O Deus que segundo a tradição judaica sempre incorporou categorias masculinas, pode ser hoje acolhido como masculino e feminino visto pelo ângulo de Sua ternura e cuidado com toda a sua criação. Esta concepção do feminino em Deus, não está vinculada a dados anatômicos, mas nas categorias femininas e maternais que se realizam em Deus, notadamente nas expressões de compaixão radical reveladas em seu filho Jesus. O Deus vivenciado como a mãe que consola, que ergue a criança até junto do seu rosto e é incapaz de esquecer do filho de suas entranhas. Um Deus que possui um seio aconchegante conforme dizem as Escrituras, é o suficiente para que nos rendamos ante atitudes discriminatórias em relação a mulher e resgatemos o seu lugar de forma igualitária e digna dentro e fora da igreja. Concordo com um certo teólogo quando disse que o caminho de Deus para ser humano foi o feminino. E acrescentou mais o teólogo:
“Se admitirmos que o ser humano enquanto masculino e feminino é verdadeiramente semelhante a Deus, então somos induzidos pela lógica da própria afirmação, a admitir que Deus mesmo é prototipicamente masculino e feminino - e quando se superar a discriminação do masculino-feminino, um oprimindo o outro, e quando o amor tiver a capacidade de ultrapassar essas barreiras, então será o começo de todas as coisas”
E finalmente, como igreja hospitaleira, ela deve ser uma igreja inculturada, hospedando a palavra de Deus por inteiro, aquela palavra que passa pelas palavras da sociedade. Aquela palavra “verbo” que lateja em todo o mundo que precisa ser auscultada e interpretada a partir dos elementos culturais e regionais distintos com os quais o povo se expressa e pelos quais se faz gente e por eles se torna conhecido por sua língua materna, seu jeito peculiar de ser, religião, literatura, arte e sobretudo sua musicalidade. Quando falamos de inculturação, da estratégia da igreja para melhor atingir o povo e cumprir sua missão evangelizadora, estamos falando de algo sobre o qual ainda se tem muita resistência. Todos acreditamos que a igreja precisa inculturar-se, de ser possuída por um rosto brasileiro expressando nossa riqueza cultural de forma criativa, mas no momento de iniciar esse processo, nos despedimos do desafio mais ou menos silenciosos.
Estamos às portas de uma reforma canônica que deverá acontecer no próximo Sínodo, mas a Igreja anglicana nesta terra, precisa também sentar-se à mesa de forma sábia e criteriosa para pensar numa reforma litúrgica inculturada e orgânica sem prejuízo das nossas melhores tradições da igreja. Talvez estejamos desconhecendo que a cultura de um povo tem a ver com seu humor. Isso se torna evidente quando não conseguimos gargalhar diante de uma piada inglesa, imagine de uma piada chinesa.
Isso acontece porque os elementos culturais que tecem a piada não nos dizem respeito. Assim, pode acontecer com maioria das formas litúrgicas que herdamos e que nos foram importadas e traduzidas. Não somente a cultura tem a ver como o humor, mas também com a emoção. Gosto do que disse Carlos Carvalhaes no seu artigo no último número de “inclusividade”. Diz ele: “cabe a liturgia coreografar a cena religiosa, onde a forma e o conteúdo se misturam”. Nós somos povo cuja fé se expressa de forma emotiva, falante, abraçável, comunicativo, sentimental, que gosta de cantar e cantar de verdade a todos os pulmões no embalo do corpo, que ora crendo no poder da oração, um povo místico, que crê no invisível, um povo que quer ver nas nossas reuniões um espaço terapêutico no sentido de aliviar seu enorme desamparo social, e estes ingredientes da alma cultural brasileira não podem estar fora da liturgia, palavra que aliás, significa “participação dinâmica do povo, ou ainda trabalho do povo”. Talvez fosse interessante se perguntar aqui como foi a qualidade da música do último ofício que participamos em nossas paróquias ou missão?
Termino essa fala com a declaração do Reverendo Jaci Maraschin no seu Livro “A Beleza da Santidade”. Que entre outras literaturas do gênero, deveria ser meditado pelas Comissões Diocesanas de Liturgia e Música:
“E certo que a necessidade de renovação litúrgica levou muita gente a pensar que só se renova na medida que se abandona o passado. Ou melhor, que só se renova se conseguirmos abandonar as melhores tradições da igreja. Nada mais falso. Por outro lado, há muita gente que tem medo das “inovações” porque lhe parecem ameaçadoras da paz eclesiástica e, portanto, do progresso da igreja”.